Um guia jurídico sobre isenções e benefícios tributários
O mês de janeiro, embora simbolize renovação, planejamento e novos propósitos, impõe aos contribuintes uma sequência de obrigações financeiras que exigem atenção redobrada. As despesas com o Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e a aquisição de material escolar costumam impactar de forma sensível o orçamento familiar.
O que muitos cidadãos ainda desconhecem, contudo, é a existência de um arcabouço jurídico sólido e protetivo, que assegura isenções, reduções e garantias legais capazes de mitigar o peso desses encargos. O pleno exercício da cidadania fiscal não se resume ao cumprimento de deveres: pressupõe, sobretudo, o conhecimento e a efetivação dos direitos assegurados pela lei.
Este artigo tem por objetivo lançar luz sobre as principais hipóteses de benefícios tributários e de proteção ao consumidor, oferecendo um roteiro seguro para que o contribuinte possa buscá-los junto às autoridades competentes.
IPVA: a isenção que vai além da idade do veículo
O IPVA, tributo de competência estadual, é um dos campos mais relevantes de aplicação de benefícios fiscais. As regras variam conforme a legislação de cada Estado, mas, de modo geral, contemplam grupos específicos de contribuintes e determinadas categorias de veículos.
Pessoas com Deficiência (PcD)
A isenção de IPVA concedida às Pessoas com Deficiência (PcD) constitui um dos mais relevantes instrumentos de justiça fiscal, amparada pelos princípios da isonomia e da dignidade da pessoa humana. A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro com status de emenda constitucional pelo Decreto nº 6.949/2009, adotou um conceito amplo e contemporâneo de deficiência, que deve orientar a interpretação das normas estaduais.
Em regra, o benefício alcança veículos — adaptados ou não — de propriedade de pessoas com deficiência física, visual, mental severa ou profunda, bem como pessoas com Transtorno do Espectro Autista. A comprovação ocorre por meio de laudo médico pericial emitido por serviço oficial ou credenciado.
A jurisprudência dos tribunais superiores tem desempenhado papel fundamental na ampliação da efetividade desse direito, reconhecendo, por exemplo, a visão monocular como deficiência visual apta a ensejar a isenção do tributo.
Como requerer a Isenção
O pedido de isenção do IPVA é realizado pela via administrativa, junto à Secretaria de Fazenda do Estado onde o veículo está registrado. O contribuinte deverá apresentar requerimento formal, acompanhado, em regra, dos seguintes documentos:
- Laudo médico pericial;
- Certificado de Registro e Licenciamento do Veículo (CRLV);
- Documentos pessoais (RG e CPF);
- Comprovante de residência.
O respeito aos prazos e às exigências formais é essencial para o deferimento do benefício.
A proteção da pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA)
A Lei nº 12.764/2012, conhecida como Lei Berenice Piana, representou um verdadeiro marco civilizatório ao instituir a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. O legislador foi expresso ao estabelecer, em seu artigo 1º, § 2º, que a pessoa com TEA é considerada pessoa com deficiência para todos os efeitos legais.
Essa equiparação jurídica garante o acesso a importantes isenções tributárias, especialmente na aquisição de veículos, instrumento essencial para assegurar mobilidade, acesso a terapias e inclusão social. Entre os principais benefícios, destacam-se:
- Isenção de IPI e ICMS: previstas na Lei nº 8.989/1995 e no Convênio ICMS 38/2012, aplicáveis à aquisição de veículos novos. O automóvel pode ser registrado em nome da pessoa com TEA, ainda que seja conduzido por seus pais ou representantes legais.
- Isenção de IPVA: decorrente da propriedade do veículo, conforme regulamentação de cada Estado, com o objetivo de aliviar o impacto financeiro suportado pelas famílias.
O procedimento segue a mesma lógica aplicada às demais pessoas com deficiência, iniciando-se pela obtenção de laudo médico detalhado e, posteriormente, pela formalização dos pedidos junto à Receita Federal (IPI) e à Secretaria de Fazenda Estadual (ICMS e IPVA).
IPTU: a importância do requerimento anual
No âmbito municipal, o IPTU também contempla hipóteses de isenção destinadas à proteção de contribuintes em situação de vulnerabilidade. Aposentados, pensionistas, idosos com renda limitada e pessoas com deficiência costumam ser beneficiados, desde que atendam aos critérios fixados na legislação local, como a posse de um único imóvel destinado à própria moradia.
Um ponto de extrema relevância jurídica merece destaque: na maioria dos municípios, a isenção de IPTU não é automática nem se renova de forma tácita. O contribuinte deve protocolar o pedido anualmente, sob pena de perda do benefício, ainda que tenha sido concedido em exercícios anteriores. A omissão pode resultar na inscrição do débito em dívida ativa e em futuras cobranças judiciais.
Material Escolar e os limites impostos pela lei
No campo das relações de consumo, a aquisição de material escolar é cercada de garantias legais destinadas a coibir abusos por parte das instituições de ensino. A Lei nº 12.886/2013, em conjunto com o Código de Defesa do Consumidor, estabelece parâmetros claros.
As escolas não podem:
- Exigir marcas específicas de produtos;
- Incluir materiais de uso coletivo, como itens de limpeza, higiene ou despesas administrativas;
- Obrigar a compra do material em estabelecimento determinado, salvo no caso de apostilas e materiais didáticos próprios.
A lista deve ser compatível com o projeto pedagógico e com a faixa etária do aluno. Exigências que extrapolem a finalidade didática individual caracterizam prática abusiva, nos termos do artigo 39 do CDC.
A negativa do benefício e as vias de proteção do cidadão
A negativa administrativa de um benefício ou a constatação de prática abusiva não encerram a discussão. O ordenamento jurídico oferece instrumentos eficazes para a defesa dos direitos do contribuinte:
- Recurso administrativo: primeira via a ser utilizada, permitindo a revisão do ato dentro da própria Administração Pública.
- Vias judiciais, quando persiste a ilegalidade, dentre as quais se destacam:
- Mandado de Segurança: ação célere utilizada quando o cidadão possui um direito garantido por lei, consegue comprová-lo por documentos e, ainda assim, sofre negativa injustificada do poder público.
- Ação Declaratória de Inexistência de Relação Jurídico-Tributária cumulada com Repetição de Indébito: destinada tanto ao reconhecimento do direito à isenção futura quanto à restituição dos valores indevidamente pagos nos últimos cinco anos.
Informação como instrumento de justiça fiscal
O início do ano não precisa representar desequilíbrio financeiro inevitável. O conhecimento dos direitos do contribuinte e do consumidor é uma poderosa ferramenta de justiça fiscal e de proteção da dignidade. Buscar isenções previstas em lei e questionar exigências ilegais não é privilégio, é exercício legítimo de cidadania.
Cabe a cada cidadão, munido de informação e consciência jurídica, zelar pela correta aplicação da lei, assegurando que os benefícios fiscais cumpram sua função social e alcancem quem verdadeiramente faz jus a eles.
Por Dra. Kênia Quintal – Advogada – Colunista – Procuradora Geral do Município de Carapebus